E então veio a verdade, e com ela veio a sombra, e a sombra devorou-me a fé e confiança que me alimentavam, e eu fiquei a ver, e caía aos poucos. A enorme sombra não tem fim. Não tem princípio nem fim. Existe, e é tudo. O desespero tomou o lugar da confiança, e a loucura veio depois dele. A insanidade apoderou-se de mim. Existia, e era tudo. Então virei-me de novo para a sombra negra e disse, desabafando: “Bem sei que não o poderás evitar a menos que eu to ordene, mas isso já eu fiz e estou pior. Não poderás mesmo, pôr termo a esta loucura?”. E a sombra, surpresa, respondeu-me: “Acaso tens estado a dormir? Lembro-me de te ter dito que o teu problema és somente tu. Não me dás ouvidos? Lembro-me também de ter-te dito que aquilo que me dá força para crescer, dar-te-à força para me combateres, mas tu não pareces ouvir. Tu não queres ouvir!”. E a sua voz estrondosa, qual raio que rasga os céus, derrubou-me e deixou-me estarrecido, deitado no chão de mim mesmo. Olhei em volta, mas não via nada. A sombra era tudo. Disse-me ainda: “Está visto, não tens salvação. Ouve-me: Onde há sombra, terá de haver a luz que a cria. E dela nasce a sombra que enche este lugar. A luz que me cria será a luz que me destruirá. Mas não enquanto continuares a lamentar-te e a pedir ajuda. Levanta-te, concentra-te na luz e ela te ajudará.” Estupefacto, perguntei de volta: “Porque me dizes tu isso? Sabes que assim serás apagada e deixas de existir. Não tens medo de deixar de ser?” e a sombra riu e disse:
”Tu não ouves mesmo! Eu disse-te antes, que nunca, ninguém me conseguiu extinguir, e que esperava que fosses o primeiro, mas não serás, vejo-o agora. Eu nunca deixo de ser, eu sou, e sempre serei. Podem reduzir-me a algo insignificante, mas nunca ninguém me extinguirá”. Ouvindo isto, pus-me de joelhos e a custo, procurei a luz por que esperava. Lá estava ela, por detrás da sombra, tem que haver uma luz. A sombra não existe sem luz, e toda a luz cria a sua sombra. A sombra nasce da luz, e ela a destrói. Concentrei-me na luz que dantes me dava confiança e na qual eu depositava a minha fé, e lentamente, a sombra foi diminuindo, entre gritos de dor e agonia, meus e dela. No entanto, não desapareceu por completo. Ainda continua lá dentro, uma pequena réstia que insiste em crescer de vez em quando, mas contra a qual encontrei a salvação, a luz que a cria, e que me guia a mim. Talvez um dia a luz me invada de tal maneira que deixe de haver sombra, ou sequer sombra de sombra. Até lá ela vive, e eu vivo com ela.
E então veio a verdade, e com ela veio uma sombra. E atravessando-se no meu caminho disse-me ao ouvido: “Bom dia caminhante. É tua toda esta aura que aqui sinto? Possuis tu uma convicção tão fortemente inabalável?” E eu, sorrindo, disse: “É minha. Esta é a convicção pela qual vivo. Esta é a aura que de mim sai, que me suporta de pé.” E disse isto sorrindo, feliz de mim mesmo. Mas aquela sombra, cujo semblante era amistoso e contente, ficou subitamente triste e preocupada. E vendo-a triste, vendo-a preocupada, perguntei: “Que foi? Não achas grandiosa a minha convicção? Não te dá gozo ver a forma como tenho vindo a crescer fé dentro de mim?” E com o mesmo semblante, preocupado e triste, disse-me em resposta: “Tu , cuja convicção e fé são inabaláveis, serás posto à prova, e aí se verá bem, aos olhos do mundo, aquilo que valem as tuas certezas. E então, serão também postos à prova os teus ideais e o teu carácter, e sairás desse caminho, provando que tens uma fé inabalável, ou pelo contrário, provando que, engrandecendo a tua fé, engrandeceste a tua queda e ruína.” E eu, confiante e com firmeza, disse enchendo o peito: “Velha sombra, a minha provação já veio e já foi. Aquilo que dela sobrou ajuda-me agora a lidar contigo, sempre que voltas. Tu não existes, apesar de não deixares de existir. És um pedaço do que outrora foste, e não me assustas mais. Mas obrigado, o teu conselho, sabê-lo-ei aproveitar. E quando chegar a minha prova, sairei deste caminho, provando que tenho uma fé que, não sendo cega, é inabalável como digo.” E a sombra sorriu, voltando ao seu ar amistoso e contente, e partiu para longe, deixando-me prosseguir o meu caminho em sossego.
2 de Junho de 2008
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(III)